O Manzuá.

Manzuá é arte, memória e território, e nasce pelo olhar de Sérgio Carvalho (1969), fotodocumentarista brasileiro com atuação marcada por projetos de longa duração e abordagem humanista. Seu trabalho envolve pesquisa aprofundada e imersão nos temas retratados, utilizando o fotolivro como linguagem privilegiada para a construção de narrativas visuais.


É autor dos livros Docas do Mucuripe (2010), Retrato Escravo (2010), Barbearia do Tempo (2011), Às vezes, criança – Um quase retrato de uma infância roubada (2013), Homens-Caranguejo (2013), Sereias (2016), Barreiro Branco (2018), Santo Sertão (2021) e Oficina do Suor (2023).


Acompanhe, através de fotografias e vídeos, esse projeto que retrata o universo da pesca artesanal nas comunidades de Icapuí - Ceará.

Quem faz o Projeto Manzuá:


Fotógrafia - Sérgio Carvalho

Direção Audiovisual - Tibico Brasil

Curadoria - Vanessa Ramos

Direção de Fotografia - Gustavo Ribeiro

Fotografia Still - Aline Caldas

Projeto expográfico - Marcus Braga

Segue a gente:

Texto da Curadora
MANZUÁ — Entre o mar, o tempo e a memória

Há saberes que não estão escritos. Passam de mão em mão, de pai para filho, entre a madeira cortada, a rede estendida e o olhar lançado ao horizonte. Manzuá nasce desse território: da relação ancestral entre homens, mar e trabalho.


Em Icapuí, no litoral cearense, a pesca artesanal da lagosta é mais que ofício. É uma forma de habitar o mundo. Ao acompanhar a construção dos manzuás, os preparativos em terra, a saída dos barcos e a espera pelo retorno, o projeto se aproxima de uma cultura moldada pelo ritmo das marés, pela incerteza e por conhecimentos transmitidos através das gerações.


A armadilha que dá nome ao trabalho torna-se, assim, também metáfora. Feita de madeira, rede, mãos e experiência, o manzuá contém muito mais que a promessa da pesca: guarda uma memória coletiva. Em sua construção sobrevivem gestos repetidos há décadas; em cada nó, cada corte e cada embarcação lançada ao mar permanece uma maneira de existir que resiste às transformações do tempo.


Há, nessas imagens, a marca de uma trajetória construída em torno do mundo do trabalho e de uma fotografia fundada na proximidade e na empatia. Sérgio Carvalho não observa esses homens à distância: aproxima-se, escuta, acompanha seus tempos e reconhece a dignidade de seus gestos. Suas escolhas dirigem o olhar aos corpos, rostos, mãos, ferramentas e marcas do ofício. A câmera deixa de ser apenas instrumento de registro para tornar-se espaço de encontro com o outro. O mar, por sua vez, não é cenário, mas presença: território de sustento e pertencimento, de abundância e escassez, de esperança e risco.


Há também uma tensão atravessando essas imagens. Manzuá fala de permanência justamente porque aquilo que registra está em transformação. Entre tradição e mudança, sobrevivência econômica e preservação do mar, entre aquilo que os mais velhos aprenderam e o que as novas gerações decidirão levar adiante, encontra-se uma cultura que precisa reinventar sua própria continuidade.


Fotografar, aqui, é participar desse movimento de transmissão. É também uma escolha ética: estar próximo para compreender antes de representar.

Manzuá constrói, portanto, menos um inventário da pesca artesanal do que uma cartografia afetiva de seus vestígios, gestos e permanências. Um testemunho sobre homens e mulheres cuja existência se escreve diariamente entre a terra e o mar.


Porque antes de ser armadilha, o manzuá é conhecimento.


Antes de ser pesca, é trabalho.

Antes de ser trabalho, é memória.

E antes de tudo isso, é vida.


Vanessa Ramos

Curadora

Este projeto é apoiado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria da Cultura do Ceará, com recursos provenientes da Lei Federal N.º 14.399 de julho de 2022.